Quem fez o «reset» ao Sporting? A mudança nos leões está a dar que falar

Mesmo protegidos pelo formato da Taça da Liga, os treinadores dos denominados grandes têm mais a perder do que a ganhar na prova. Conquistar o troféu não salva a época a ninguém, falhar a final four é grande embaraço.
Rui Borges tinha um contexto ainda mais desfavorável frente ao Marítimo: a eliminação ditaria o despedimento, mas o treinador do Sporting não mudou o planeamento por causa disso. Claro que não podia apresentar onze idêntico ao que tinha perdido menos de 48 horas antes — difícil compreender esta calendarização, já agora —, mas a gestão podia ter sido conservadora. Rui Borges não se desviou do traçado e até ganhou novas opções. Merece crédito por isso, por pouco que seja, pelo menos à escala do que tem andado a perder junto dos adeptos leoninos.
O técnico mirandelense continua a prazo, portanto, e a margem até depende mais das alternativas disponíveis do que propriamente da confiança da estrutura. Só uma recuperação histórica na Liga ou uma campanha europeia ao nível da anterior podem gerar um milagre, mas é difícil imaginar que lhe seja concedido tempo para perseguir esses objetivos. Um lugar na história do clube já ninguém lhe tira, mas parece inevitável que, um dia destes, Rui Borges acabe abrangido também pela mudança de ciclo que começou no balneário.
Neste mesmo espaço, a 23 de julho, escrevi assim: «O Sporting sabe o que quer e decide rápido, o que é de louvar, mas às tantas interrogo-me se não fará mal à máquina ter o dedo tanto tempo no botão, para forçar o reinício. Mais do que analisar as decisões indivualmente, é a dimensão global que levanta dúvidas para a nova temporada. As atualizações são essenciais para manter uma performance elevada, mas o Sporting pode correr o risco de perder as definições do sistema.»
O Sporting deixou de ser a equipa que tinha Hjulmand, Morita, Pedro Gonçalves e Trincão por dentro, para ser uma equipa com um buraco no corredor central.
Ganhou dimensão física mas perdeu conforto com a bola, agora que vive sobretudo de esticões no jogo. Uma equipa mais mecânica, mas menos criativa.
Não foi apenas na vertente técnico-tática que perdeu referências, foi também na liderança dentro de campo. Não é uma crítica a Inácio ou Quaresma, filhos da casa que merecem reconhecimento, simplesmente nem todos os jogadores têm esse perfil (ou precisam de mais tempo para o assumir).
Recuperando a metáfora de julho, é caso para dizer que Rui Borges também tem responsabilidade nesta atualização ao sistema que correu mal, mas não foi ele a carregar no botão que fez reset à equipa do Sporting.
O período de reflexão de Frederico Varandas é compreensível, mas o presidente leonino terá de assumir que partiu dele a instabilidade.



