Padeiro que salvou crianças francesas em Alcácer do Sal distinguido como herói: “Saiu a sorte grande aos miúdos”

O homem que salvou Zacharie e Barthelemy foi esta sexta-feira, reconhecido publicamente pelo gesto que o país não consegue esquecer. Alexandre Quintas, o padeiro de Alcácer do Sal que encontrou os dois irmãos franceses abandonados junto à estrada e os levou para casa, foi distinguido por Carlos Rodrigues, Diretor-Geral Editorial do grupo Medialivre, com o prémio honorário «Herói CM» — uma distinção que chegou numa semana em que o nome deste homem simples e generoso correu o país de ponta a ponta.
Mais do que o prémio, foi a entrevista que Alexandre Quintas concedeu à CMTV que voltou a emocionar todos os que a acompanharam. Com as lágrimas à superfície e sem qualquer artifício, o padeiro falou sobre os dois meninos como se fossem seus — com um carinho que contrasta de forma dolorosa com o que aquelas crianças viveram às mãos de quem deveria protegê-las.
“Fazia o que lhes fiz — dar um abraço forte para sentirem calor e amor”
Questionado sobre o que diria a Zacharie e Barthelemy se pudesse voltar a estar com eles, Alexandre Quintas não hesitou. “Fazia o que lhes fiz, que era dar um abraço bem forte para eles sentirem calor e amor, que se calhar nunca tiveram.” Uma frase curta, mas densa — que resume tanto o gesto do homem como a tragédia das crianças.
O padeiro revelou também que não tenciona deixar que o tempo apague esta ligação. “Espero voltar a vê-los e, se um dia ficar sem notícias deles, vou procurá-los. Acho que não se vão esquecer de mim.” Uma promessa dita com a naturalidade de quem não procura reconhecimento, mas simplesmente não consegue largar a memória daqueles dois rostos assustados que encontrou a chorar junto à estrada.
“Saiu a sorte grande aos miúdos — da pior maneira”
Alexandre Quintas tem plena consciência do que aconteceu naquela tarde e do papel que desempenhou. Quando questionado se percebe que salvou a vida das crianças, a resposta foi direta e sem falsa modéstia. “Sim, tenho. Pelo que tenho visto nas notícias, esta mãe e este padrasto… Tenho noção de que saiu a sorte grande aos miúdos. Da pior maneira, mas saiu a sorte grande.”
Sobre o futuro dos irmãos, o padeiro mostrou ter uma opinião clara e fundamentada no afeto. “Sinceramente, gostava que ficassem com algum familiar bem estruturado. É diferente de ser outras pessoas. Se a família for toda assim, mais vale ficarem com pessoas que lhes consigam dar amor.” Uma reflexão que revela um homem que pensa no bem-estar real das crianças, para além do imediato.
As imagens que colocaram os suspeitos em Portugal
Enquanto Alexandre Quintas recebia o reconhecimento público pelo seu gesto, o caso em si continuava a ganhar contornos cada vez mais perturbadores. A TVI divulgou imagens que mostram o momento exato em que a família entrou em Portugal — pelas 18h16 do dia 11 de maio, num posto de combustível em Miranda do Douro.
Um carro cinzento escuro para junto às bombas. De lá saem Marine Rousseau, de 41 anos, e Marc Ballabriga, de 55 anos. Os dois irmãos, Zacharie e Barthelemy, ficaram no interior do veículo durante toda a paragem, a saltar de banco em banco, segundo descreveu o canal. Uma imagem de aparente normalidade que, vistas à luz do que se seguiu, ganha uma carga muito diferente.
Marc foi à casa de banho enquanto Marine ficou junto ao carro. Aos funcionários do posto, os dois adultos perguntaram onde podiam tomar banho na zona, tendo sido indicados hotéis nas redondezas e um parque de campismo. O abastecimento foi pago com cartão multibanco — um detalhe que viria a revelar-se crucial para a investigação.
Foi precisamente este pagamento que deu às autoridades francesas a confirmação de que Marine e os dois filhos já estavam em Portugal — e que não viajavam sozinhos. “Ao volante da viatura, um homem desconhecido inicialmente pelas autoridades e entretanto já identificado”, explicou a TVI, referindo-se a Marc Ballabriga, o padrasto dos meninos, que conduzia o veículo.
Os dois suspeitos acabariam por ser localizados e detidos pela GNR a cerca de 200 quilómetros do local do crime, em Fátima — encerrando uma fuga que durou dias e que manteve o país em suspenso.
Quem é Marine Rousseau, a mãe que abandonou os filhos?
Talvez a pergunta que mais tem ocupado a opinião pública desde que o caso se tornou conhecido seja esta: quem é, afinal, esta mulher? O perfil que vai emergindo das investigações e das reportagens é, no mínimo, desconcertante.
Marine Rousseau tem 41 anos e é sexóloga. Vivia em Colmar, na Alsácia, perto da fronteira com a Alemanha. Nas suas redes sociais, apresentava-se como uma profissional dedicada ao tema da sexualidade na família — dava aulas online a ensinar pais a falar sobre sexualidade com os filhos. “Aliás, tinha uma aula marcada exatamente para esta quinta-feira”, sublinhou a TVI numa reportagem, num detalhe que ilustra de forma perturbadora o abismo entre a imagem pública que a mulher projectava e o que estava a acontecer na sua vida privada.
O comportamento de Marine Rousseau surpreendeu não apenas as autoridades, mas também a sua própria família. Segundo informações avançadas pela TVI, “a própria família de Marine também comunicou o desaparecimento da mulher a 11 de maio” — o mesmo dia em que entrou em Portugal com os filhos e o companheiro.
O procurador Jean Richert, citado pela agência France-Presse, resumiu a perplexidade de quem a conhecia: “O que surpreendeu foi que ela não estava em casa, não tinha qualquer motivo aparente para não estar e não avisou absolutamente ninguém.”
Em França, antes de partir, Marine terá ainda abandonado um terceiro filho, de 16 anos — um dado que aprofunda a gravidade do que está a ser investigado e que levanta questões sérias sobre o estado mental da mulher nos dias e semanas que antecederam os acontecimentos em Portugal.



