Teresa Guilherme arrasa os reality shows atuais: “Não queria, nem morta”

A apresentadora reconheceu sem hesitação a sua postura exigente ao longo da carreira. “Eu tenho ideias fixas, mas é indiferente se é como produtora ou como apresentadora. Tenho a noção que abusei muito da paciência do José Eduardo. Ele foi muito paciente comigo, muito paciente até, porque eu tinha as minhas convicções e é uma chatice ter uma pessoa que só tem convicções.”
Ainda assim, Teresa Guilherme sublinhou que essa exigência foi essencial para o sucesso construído em conjunto. “Conseguimos em conjunto, na verdade, fazer um bom trabalho, senão não existiria até hoje os programas. Mas é muito difícil. Hoje em dia não sou assim, mas naquela altura, considero que essa exigência minha é até boa.”
Questionada sobre a relação atual com José Eduardo Moniz, foi direta. “Cordial. Falamos, não trabalhamos juntos, portanto não há aqui essas relações de trabalho. Quando não estão a trabalhar juntas, não ficou uma relação muito bem esclarecida a nível profissional.”
O impacto do colapso do BES: “Foi uma desilusão”
A conversa avançou para um tema mais delicado: a perda de cerca de três milhões de euros no colapso do Banco Espírito Santo. Flávio Furtado não hesitou em confrontar a convidada com os rumores que ainda circulam. “Ainda agora nos Açores falavam num grupo sobre si e há imensas pessoas que perguntam: ‘Mas a Teresa perdeu tanto dinheiro e a vida dela…’ Mudou assim tanto na sua vida? Esses três milhões fizeram assim tanta falta?”
Teresa Guilherme explicou que o abalo inicial foi sobretudo emocional. “Na altura não. Quando aconteceu, não. Foi mais a desilusão, aquela sensação de ter feito uma coisa… Porque ficas zangada contigo, não é? Ninguém te obrigou a pôr dinheiro num banco ou seja o que for. Portanto, foi uma desilusão.”
A partir daí, admitiu ter tido de reorganizar completamente o seu estilo de vida. “A partir daí, estás sempre a confrontar-te com ‘não posso comprar isto’. O que eu tive de fazer? Reduzir as minhas despesas. O que me correu bem foi não ter créditos, não devia nada de coisa nenhuma, portanto foi bom. Mas redimensionei a minha vida.”
Deu ainda exemplos concretos da mudança de hábitos. “Nas coisas que ‘apetece-me viajar para aqui, vou para este hotel’ e eu não tenho que ponderar ‘vou ou não vou, faço ou não faço’ e se tenho isto ou não tenho aquilo… Tornei-me numa pessoa… É aquela história como diz o Herman: ‘Quando eu era rica foi uma altura da minha vida’ e depois tens que ir andando e continuas.”
E fechou o tema com uma reflexão sobre a gestão financeira com o avançar da idade. “O que acontece à medida que vais ficando mais velha, pensas: agora vives tanto tempo, nunca se sabe se a pessoa chega aos 90 ou não, começas a pensar.”
“Não queria, nem morta”: as críticas aos reality shows atuais
Teresa Guilherme não poupou nas críticas ao estado atual dos programas de confinamento em Portugal, apesar de confessar saudades da época em que os apresentava. Questionada por Flávio Furtado se sentia falta de comandar realities, foi taxativa. “Tenho saudades da época, daquela época. Mas da época dos realities quando os realities eram realities. Não é agora, e isto como está, está um desastre, não queria, nem morta.”
Confrontada com a possibilidade de estas críticas serem interpretadas como ressentimento por estar afastada da função, desvalorizou por completo. “Ah, claro, mas é lá com elas. Eu apresentei os realities quando as pessoas ainda estavam fechadas nas casas, ainda se cumpriam as regras todas, não se atrapalhava. Não havia este cruzar vai dentro da casa e fala para fora da casa e, na verdade, os concorrentes não estão isolados.”
A apresentadora recordou que o divertimento era o pilar central da sua forma de conduzir os programas, algo que considera ter-se perdido atualmente. “Era divertido. Para mim é importante, sempre apresentei programas divertidos. Era importante que houvesse ali momentos de divertimento.”
Contestou ainda a ideia de que os comportamentos dentro da casa reflitam a realidade dos concorrentes. “É mentira que o que se passa dentro de uma casa seja um reflexo da vida real. Não é a vida real, aquilo é a novela da vida real. É criar um ambiente para as pessoas estarem em stresse, seja um stresse porque se apaixonam, seja um stresse. Mas é uma coisa de pressão, tanto que ali são pessoas a jogar, são pessoas no jogo e a viverem uma experiência nova, não é nada a vida real.”
O trabalho com o carisma dos concorrentes: o caso de Cátia
Teresa Guilherme recordou ainda como potenciava as personalidades dos concorrentes para os transformar em figuras mediáticas de sucesso. “Eu tenho a certeza que sim, porque se trabalhava muito um lado das pessoas. Eles não eram todos a mesma personagem. Cada um tinha coisas mais divertidas, havia pessoas mais conflituosas. É aproveitar o que cada um tinha para dar e dar-lhes oportunidades.”
Como exemplo, recordou o caso de uma concorrente da “Casa dos Segredos”. “Eu lembro que a Cátia, que até era muito engraçada, mas que nos confessionários… Que chegavam a durar 20 minutos os confessionários dela, que eu escrevia um consultório sentimental para ela responder e ela achava que era mesmo a sério, e respondia… E outras coisas que se inventavam.”
A antiga aversão aos comentadores de reality shows
Um dos momentos mais reveladores da entrevista aconteceu quando Flávio Furtado trouxe à tona uma frase antiga da convidada, dita nos bastidores da TVI, numa altura em que os painéis de comentário sobre concorrentes começavam a ganhar espaço na grelha. “Vou ter que contar aqui uma coisa: a Teresa era contra programas de comentário de realities. Ela uma vez entrou na maquilhagem e gritou para mim: ‘se eu mandasse na TVI vocês eram todos corridos ao pontapé daqui para fora…’”
Teresa Guilherme esclareceu de imediato. “Ao pontapé não devo ter dito. Eu não gostava de comentadores.”
A apresentadora justificou a antiga postura, explicando que a intervenção externa muitas vezes colidia com a narrativa construída pela produção. “Não gostava de comentadores porque nós tínhamos uma narrativa e queríamos pôr para cá esta pessoa. E em vez de irem a favor da narrativa do programa, não era a minha narrativa, era a narrativa do programa, iam contra e criticavam as pessoas, e analisavam coisas que não sabiam analisar, na minha opinião.”
E concluiu com a sua visão sobre a coesão que um produto televisivo deveria ter. “Eu achava que um programa tinha que remar tudo para o mesmo lado, ou seja, toda a gente lá entra, seja um apresentador seja quem for, quem está cá fora tem que dizer a mesma coisa.”



