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Rodrigo Guedes de Carvalho arrasa Cristina Ferreira e atira comparação bombástica com Maria Antonieta: “Desligada da realidade”

Rodrigo Guedes de Carvalho, pivô da SIC e escritor, assina regularmente uma crónica no jornal Expresso — e a mais recente não passou despercebida. Intitulada Cristina Antonieta, a peça é uma análise dura e cirúrgica à postura de Cristina Ferreira durante a polémica que a envolveu após as suas declarações sobre o caso de uma jovem menor de idade violada por quatro influenciadores digitais.

O jornalista começa por estabelecer a comparação histórica que dá título à crónica, recorrendo à figura de Maria Antonieta para introduzir o conceito de quem não consegue — ou não quer — ler o momento em que vive. “Quando Maria Antonieta se irritou com o povo faminto que pedia pão e o mandou comer brioche, inaugurava uma condição a que o futuro chamaria ‘não saber ler a sala’. Não percebeu a brisa a tornar-se vento, nem que o aroma dos tempos era já mais acre do que rosa”, escreve, preparando o terreno para o que se segue.

“Saiu-lhe mal”

O jornalista começa por ser relativamente generoso na interpretação das palavras iniciais da apresentadora, admitindo a possibilidade de ter sido um deslize involuntário. “Quero crer que, em primeira instância, as famosas palavras de Cristina Ferreira sobre uma violação tenham sido ‘apenas’ uma encarnação da rainha distraída. Estava ali a falar e no calor do momento escapou-lhe uma expressão que soou a compreensão dos jovens meliantes criminosos”, escreve.

E acrescenta: “Cristina, vamos acreditar, não queria dar a entender que não achava grave a coisa. Saiu-lhe mal, ou nós é que vivemos tempos demasiado exigentes. Enfim, qualquer justificação por aqui, quem nunca?”

Mas a benevolência inicial esgota-se rapidamente. Para Rodrigo Guedes de Carvalho, o verdadeiro problema não foram as palavras originais — foi o que se seguiu. “O mais pesado problema está no depois e na reação às reações”, afirma, antes de apontar aquilo que considera ser a maior contradição da apresentadora.

“É aqui que me desiludo, porque sempre ouvi à Cristina Ferreira aquela cantilena de pretenso empoderamento das novas guerreiras”, escreve, sublinhando que a situação representava uma oportunidade única. “Tínhamos aqui uma óptima oportunidade de a ver praticar os sermões com que educa seguidoras. Mas preferiu outro caminho. O que, bem vistas as coisas, é mais coerente com o rasto que vai deixando: ela em primeiro lugar, depois todos os outros, depois tudo o resto.”

O silêncio, o comunicado e a escolha do palco

Rodrigo Guedes de Carvalho descreve depois a sequência de acontecimentos com uma precisão que não esconde o sarcasmo. “Cristina ficou de orelhas a arder nas redes que domina como ninguém” e que se seguiu um “período considerável de silêncio.” “O país falava dela mas ela não vinha ao ringue.”

Quando finalmente decidiu falar — depois de um comunicado da TVI —, a escolha do palco não foi modesta. “A reação estava a ser pensada em grande e sem grande preocupação de pudor. Para o tamanho de Cristina, só a cadeira onde se sentaram tantos dos mais altos representantes da nação: em frente ao jornalista que apresenta o principal jornal no principal horário mais do que nobre. Cristina demora a reagir, mas quando vem, é para falar ao país.”

“Qualquer malvado que ouse criticar Cristina tem é dor de cotovelo, porque não é famoso nem rico como ela, nem vai ali às Bahamas só um fim-de-semana, com fotos e tufo a comprovar”, escreve, numa passagem que resume bem o tom geral da crónica.

A recusa do pedido de desculpa

Um dos momentos mais comentados da entrevista ao Jornal Nacional foi precisamente aquele em que José Alberto Carvalho deu a Cristina Ferreira a oportunidade de pedir desculpa — e ela recusou. Rodrigo Guedes de Carvalho não deixou passar o momento sem registo. “No final da entrevista vem a oportunidade. José Alberto Carvalho pergunta-lhe se quer aproveitar para pedir desculpa. Não quer. Não dirá a palavra. Apenas lamenta que sejam tão injustos com ela, que interpretem mal os seus abnegados pensamentos.”

Rodrigo Guedes de Carvalho termina a crónica e sintetiza o que está verdadeiramente em causa: “Tudo isto seria apenas ridículo se não fosse de ampla e grave repercussão. Com uma enorme exposição pública vêm grandes responsabilidades. Há muito que, na vertigem da fama, Cristina sente que é uma mãe e irmã dos portugueses, e também psicóloga-terapeuta-conselheira. E escolheu dizer às meninas e mulheres deste país que quando os rapazes começam a violar ficam um nadinha cegos e surdos. É deixá-los acabar, e já passa.”

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